Notas de uma voz determinada
Kássio me segurou pelos ombros, com o olhar sério e carregado de preocupação. – Não faça nada, Emi!
Cruzei os braços, determinada. – Não posso ficar de braços cruzados!
– Pode, sim, e vai! – Ele respondeu, firme. – Amor, você tem que aprender a deixar os outros resolverem os próprios problemas. Não pode se meter em tudo o que não te diz respeito.
Ergui o queixo, desafiadora. – Acontece que as pessoas não sabem resolver seus problemas, e aí eu tenho que ajudar.
Ele suspirou, exausto. – Não, você não ajuda. Você acaba atrapalhando e, quando a coisa fica feia, foge.
As palavras dele me atingiram como uma facada. – Não é verdade!
Kássio suspirou, tentando manter a calma. – Me desculpe, mas é verdade, sim.
Olhei para ele, magoada. – Você está contra mim ou o quê?
Ele balançou a cabeça, frustrado. – Não, Emi. O fato é que você está agindo feito criança.
Senti o sangue ferver. – Criança?! É isso que você pensa de mim?
– Não, o que eu disse é que você está agindo assim. Não distorça minhas palavras. – Ele tentou explicar.
Mas a mágoa era mais forte. – Eu interpretei muito bem! E não se preocupe, porque a criança aqui não vai mais te incomodar com os problemas dela. Tchau!
– Emília, volta aqui! – Ele gritou, mas eu já estava saindo.
Eu precisava ir embora antes de admitir para mim mesma que ele estava certo. Kássio finalmente falou francamente comigo, e o pior é que ele tinha razão. Talvez fosse por isso que ele ainda não queria casar comigo. Eu tinha dezessete anos, mas, às vezes, me sentia com apenas dez. Eu tinha medo de crescer, de amadurecer. Eu achava que ser adulta significava ser chata, perder a espontaneidade, a liberdade.
No caminho de casa, encontrei Márcia. Ela estava radiante, como se estivesse flutuando.
– Oi, Márcia! Como foi o encontro com o Beto? – Perguntei, tentando disfarçar minha tristeza.
Ela sorriu, os olhos brilhando. – Foi maravilhoso! Você acredita que ele foi ao palco cantar e me dedicou uma música? Mas... por que você está com essa cara?
Suspirei, derrotada. – Briguei com o Kássio. E o pior é que a culpa foi minha.
Márcia franziu o cenho, preocupada. – O que aconteceu?
– Ele me disse que eu estava agindo feito criança. E como uma criança, eu briguei com ele e saí. – Admiti, sentindo o nó na garganta apertar.
Ela sorriu suavemente, tentando me consolar. – Às vezes você é um pouco infantil, mas outras vezes é a mais madura entre nós.
– Então por que o Kássio não enxerga isso? – Perguntei, frustrada.
Márcia riu levemente. – Porque, quando você está conosco, ele está trabalhando.
Meus olhos se iluminaram com uma ideia repentina. – É isso!
– Isso o quê? – Ela perguntou, confusa.
– Vou arrumar um emprego e mostrar pra ele que sou madura de verdade. – Declarei, cheia de determinação.
Márcia tentou não rir, mas acabou soltando um comentário sarcástico. – Ah vá! Você não sabe fazer nada. Quem te daria um emprego?
– Valeu pelo voto de confiança! – Respondi, cruzando os braços.
Ela suspirou. – Desculpa, amiga, mas você tem que admitir isso.
– Eu não sei fazer nada, mas posso aprender. Só preciso encontrar um emprego que seja legal, pague bem e não tome muito do meu tempo. – Argumentei, com teimosia.
Márcia balançou a cabeça, rindo. – Aí fica difícil!
– Não tem nada de difícil, além do seu pensamento negativo. – Rebati, determinada.
Ela suspirou, exasperada. – Amiga, encare os fatos! Você não tem um curso profissionalizante, não tem experiência e ainda quer um trabalho meio impossível.
Ergui o queixo. – Eu não preciso de experiência. Só preciso de uma oportunidade.
Márcia levantou as mãos, rendida. – Ok, não falo mais nada sobre isso.
Sorri, satisfeita. – Sabe o que eu estava pensando?
– Espero que não seja nada mirabolante! – Ela respondeu, desconfiada.
– Não, é uma coisinha bem simples.
– Estou até com medo dessa coisinha. – Ela brincou, rindo.
Olhei para ela com um sorriso desafiador. – É simples: eu vou ser cantora!
Márcia arregalou os olhos. – Cantora?! Você pirou? Emi, você não sabe cantar!
Revirei os olhos. – Estraga-prazeres! Quem te disse que eu não sei cantar? Aliás, você nunca me ouviu cantar. Mas eu não ligo e sabe por quê?
– Não sei se quero saber. – Ela respondeu, ainda mais desconfiada.
– Vou te dizer mesmo assim. Quando eu ficar famosa e fizer shows internacionais, aí vou mostrar pra você se sei cantar ou não. Me aguarde!
Ela balançou a cabeça, rindo. – Emi, eu não quis duvidar de você. Mas o ramo da música é complicado.
Dei de ombros. – Matemática é complicada! Música é expressão, algo que toca a alma. Eu quero tocar o coração das pessoas, passar minha mensagem. Só quero mostrar ao mundo o meu talento.
Márcia olhou para frente e apontou. – Olha quem tá vindo aí. Vamos perguntar o que ela acha disso.
Levantei a cabeça e sorri. – Andy! Por onde você andou? Faz tempo que a gente não se vê.
Andreia sorriu de canto. – Estava resolvendo umas paradas aí.
– Certo. Se quiser contar, tudo bem. A Márcia tem uma pergunta pra te fazer. – Falei, sorrindo.
Andreia arqueou a sobrancelha. – Pergunta? Pois faça, Márcia!
Márcia riu. – Só quero saber se é verdade que a Emi canta bem.
Andreia soltou uma gargalhada. – Você nunca ouviu a Emi cantar?! Não sabe o que está perdendo. Emília, mostra pra ela!
E foi aí que eu cantei, colocando minha alma em cada palavra da música. Márcia ficou em silêncio por um momento, antes de admitir: – É, você canta bem mesmo!
Márcia: — Uau, você canta muito bem! Que música é essa? É tão linda que parece mágica.
Eu: — É "What Are You Waiting For?", da Miranda Cosgrove.
Andreia: — Então, minha amiga está querendo ser cantora?
Eu: — Desde que eu era pequena, eu brincava com a Sami. Ela era minha maior fã! Eu subia na cama, improvisava um palco, e cantava pra ela. E sabe? Ela ficava sentadinha no chão, com aqueles olhinhos brilhando, me ouvindo. Era como se o mundo parasse e só existíssemos nós duas, entre música e sonhos.
Andreia: — Emi, você precisa entender que nem todo mundo nasceu para ser cantor ou cantora, sabe? Tipo... você.
Eu: — Eu sei, Andreia. Mas é justamente por isso que vou provar algo a mim mesma.
Márcia: — Provar? Como assim?
Andreia: — Que tipo de prova você está falando?
Eu: — Eu vou fazer um show. Um verdadeiro show!