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segunda-feira, 16 de maio de 2016

Tempos de Colegial Capítulo 83

Laços que Resistem ao Tempo 

Os dias seguintes foram preenchidos com os preparativos do casamento, mas minha mente estava longe de tranquila. A sensação de que algo estava para acontecer crescia a cada instante. Eu tentava me distrair escolhendo flores e ajustando a lista de convidados, mas a ausência de Sami pesava no meu coração mais do que nunca. Sua ausência nas conversas, nos momentos de decisão e na vida em geral era um vazio impossível de preencher.

Em uma noite particularmente difícil, peguei o antigo diário dela. Eu costumava me sentir mais próxima de Sami quando lia suas palavras. Ela tinha uma forma única de enxergar o mundo, sempre tão cheia de sabedoria e compaixão. Conforme folheava as páginas, encontrei um trecho que parecia escrito para mim naquele momento:

"Nunca deixe que ninguém desfaça seus sonhos. O que você constrói com amor é mais forte que qualquer tempestade. Confie no seu coração, mesmo quando a estrada parecer incerta."

Eu fechei o diário e olhei para o anel de noivado em minha mão. Sami sempre apoiou o meu amor por Kássio. Mesmo depois de sua partida, suas palavras continuavam sendo minha fonte de força.

Mas não conseguia evitar a inquietação. Algo estava errado, e eu sabia que precisava tomar alguma atitude. O senhor Antônio não era uma ameaça qualquer. Ele parecia disposto a tudo para desestabilizar nossa união. Kássio me assegurava que tudo ficaria bem, mas eu não podia ignorar o pressentimento que se intensificava.

Quando estava guardando o diário da minha querida irmã, recebi uma ligação. Meu coração disparou quando vi o número. Era Danile.

— Emi? — A voz da minha amiga estava hesitante. — Precisamos conversar.


Fiquei confusa. Dani estava há alguns fora do país, viajando em lua de mel . Não era do feitio dela ligar do nada.

— Claro, Dani. O que aconteceu? — perguntei, tentando manter a calma.

— É sobre o senhor Antônio. — A menção dele fez meu corpo congelar. — Eu recebi algumas informações... coisas que você precisa saber antes do casamento.

Eu sentei no sofá, meu coração batendo forte: — Dani, do que você está falando?

Ela hesitou antes de responder: — Não posso dizer tudo por telefone. Mas é sério, Emi. Preciso que você tome cuidado. Ele... ele não vai desistir de interferir na sua vida.


Depois daquela ligação, os sentimentos de angústia se transformaram em uma verdadeira tempestade dentro de mim. Eu precisava saber o que Dani havia descoberto. E, mais do que isso, precisava proteger meu futuro ao lado de Kássio.


No entanto, uma coisa era certa: algo estava para acontecer. E eu teria que estar pronta.

Na manhã seguinte, decidi conversar com Kássio. Era hora de compartilhar minhas preocupações, mesmo que ele achasse que eram apenas nervosismo pré-casamento. Sentia que apenas juntos poderíamos enfrentar o que estava por vir. Com as lembranças de Sami me guiando, estava determinada a proteger o que havíamos construído.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Tempos de Colegial Capítulo 82

Laços de amor e desafios 


— Sério?! — Kássio começou, seu tom misturando incredulidade e frustração. — É sério que você vai fingir que não sabe do que eu estou falando?  
— Eu sei, Kássio. Eu sei que o que eu fiz não foi certo — admiti, sem conseguir encará-lo diretamente. — Sei que não devo satisfações ao seu pai, mas eu cansei. Cansei de vê-lo se meter na nossa vida, de vê-lo te incomodar, e você não fazer nada. E, acima de tudo, eu cansei de ser um problema na sua vida.  

Kássio balançou a cabeça, os olhos presos nos meus: — Emi, você não é o problema. Meu pai é. Eu sei que você só queria consertar as coisas, mas você não precisa enfrentar os meus problemas por mim. Eu sei como lidar com ele. Você não precisa se preocupar comigo.  

— Mas eu me preocupo, Kássio! — rebati, a voz embargada. — Eu não aguento essa situação. Você sabe que eu não consigo presenciar tudo isso e ficar de braços cruzados. Eu quero te ajudar.  

Ele segurou minhas mãos com firmeza, mas o tom dele era claro: — Eu sei que você quer ajudar e te agradeço por isso, de verdade. Mas não quero que você se envolva com o meu pai.  

Meu peito apertou, e com hesitação perguntei: — Por quê?  

Ele desviou o olhar, como se as palavras pesassem ainda mais que o silêncio: — Porque ele é manipulador. Ele sabe como virar a cabeça das pessoas. Por favor, Emi, fique longe dele.  

Respirei fundo, tentando controlar as lágrimas: — Tudo bem. Se é isso que você quer.  
— Não é sobre o que eu quero — Kássio corrigiu, sua voz quase um sussurro. — É sobre o que tem que ser.  

Assenti, com um nó na garganta: — Tudo bem, eu entendo.  

Mas entender não tornava as coisas mais fáceis. Ele saiu sem dizer mais nada, deixando uma trilha de silêncio pesado atrás de si. Minha mãe, que estivera observando tudo, permaneceu na sala. E pela expressão dela, sabia que estava prestes a ouvir o que ela pensava.  

— Pode mandar a bronca, mãe — murmurei, já esperando o sermão.  

Sara cruzou os braços, o rosto sério: — Você acha que não merece? Eu só queria saber o que passa na sua cabeça, Emília.  

Levantei as mãos, tentando me defender: — Mãe, olha...  
— Eu ainda não terminei de falar! — interrompeu ela, com firmeza.  

Suspirei, exasperada: — Nem precisa. Eu já sei o que a senhora vai dizer e, sinceramente, não quero ouvir. Cansei de todo mundo se meter no meu relacionamento com o Kássio. Cansei de todo mundo achar que pode resolver nossa vida por nós. Eu cansei de ter que argumentar com você sobre o meu futuro. Essa é a minha vida e eu quero decidir por mim mesma o que fazer dela.  

Ela esperou um momento antes de perguntar, com calma: — Terminou?  

Olhei para ela, ainda irritada: — Não. Tem muito mais, mas vou parar por aqui. A senhora me ensinou a respeitar os mais velhos.  

Sara respirou fundo antes de falar: — Ótimo. Agora é minha vez, e você vai ouvir. Não me interrompa. Eu não sou contra o seu relacionamento com o Kássio. Talvez tenha sido intransigente no início, mas minha opinião sobre ele mudou. O problema não é o Kássio. É essa ideia absurda de vocês se casarem. Não acho que estejam prontos para assumir esse tipo de compromisso.  

Eu olhei para ela, tentando ser paciente: — Mãe, ninguém nunca está pronto para compromissos desse tipo. Mas as pessoas assumem mesmo assim. Construir e manter uma família é difícil, mas na vida a gente tem que assumir riscos. Senão, acabamos nos arrependendo de não viver como queremos. Eu amo o Kássio e vou me casar com ele. Que vai ser difícil, vai. Mas a vida é assim.  

Sara abaixou o olhar, sua voz tremendo levemente: — Eu só não quero que você se magoe, filha.  

Segurei suas mãos e disse com sinceridade: — O Kássio nunca me magoaria, mãe. Ele me ama e eu o amo. Vamos casar e ser muito felizes.  

Ela finalmente sorriu, resignada: — Mesmo assim quero que saiba que vou estar aqui para o que você precisar.  

Abracei minha mãe como há muito tempo não fazia. Aquele gesto significava tanto para mim. Eu estava feliz, porque meu sonho de casar com Kássio estava se tornando realidade. Mas saber que minha mãe finalmente me apoiava tornou tudo ainda mais especial.  

Com a data do casamento marcada para dois meses, uma felicidade indescritível tomou conta de mim. Mas também uma melancolia. A ausência da minha irmã, Sami, pesava no meu coração. Eu queria que ela fosse minha madrinha, mas isso não seria possível.  

Ao mesmo tempo, um sentimento de inquietação me acompanhava. Eu tinha medo que o senhor Antônio fizesse algo para impedir nosso casamento. Kássio parecia imune a ele agora, mas eu não conseguia afastar essa angústia. Era como um pressentimento de que algo ruim estava por vir.  

Queria compartilhar isso com alguém, mas temia que fosse interpretado como simples nervosismo pré-casamento. Eu sabia que não era. Era algo mais profundo, um aviso que ecoava dentro de mim. E o mais aterrorizante era não saber como impedir.  

domingo, 13 de abril de 2014

Tempos de Colegial Capítulo 81

O Amor que desafia barreiras 


— A gente já não conversou o suficiente? — Kássio disse, cruzando os braços, claramente incomodado.  
— Filho, eu não vim aqui para brigar. Não quero mais discussões entre nós — respondeu Antônio, sua voz firme, mas carregada de um tom quase suplicante.  

Eu, percebendo o clima tenso, tentei intervir: — Ãhhh... desculpa, vou deixá-los a sós para que conversem à vontade. Com licença.  
Afastei-me, mas a contragosto. Cada passo que eu dava parecia mais pesado, como se um imã invisível me puxasse de volta. Não queria sair. Sabia que o que quer que o senhor Antônio dissesse a Kássio me afetaria diretamente. Ele ainda tinha influência sobre o meu noivo. E o medo me corroía: será que ele conseguiria convencê-lo a desistir de nós mais uma vez?  

— Você tem que voltar para casa, meu filho — a voz grave de Antônio preencheu o espaço.  
— Acho que o senhor já deixou muito claro, da última vez que conversamos, qual é sua posição: “Minha casa, minhas regras”. Não foi isso que você disse? — retrucou Kássio, com uma amargura evidente. — Bem, eu cansei de ser seu fantoche, pai. Não vou abrir mão da garota que amo, só porque você...  
Antônio o interrompeu, respirando fundo antes de continuar: — Kássio, eu ainda não acho que ela seja a pessoa certa para você. Mas... também não vou mais interferir no seu relacionamento. Sua mãe me fez enxergar que eu estava agindo errado. Só quero que você volte para casa, para junto da sua família.  

Kássio o encarou com determinação: — Não, eu não vou voltar. A Emília e eu vamos nos casar e construir nossa própria família.  
— Casar? — a voz de Antônio tremeu, em choque. — Você ainda nem se formou! Filho, você não pode...  
— Posso sim, pai. Não só posso, como vou. A Emi é a garota que eu amo, e mesmo depois de casados, não vamos desistir dos estudos. Nunca permitiria que ela fizesse isso, e sei que ela pensa o mesmo sobre mim. Vai ser difícil? Claro que vai. Mas a vida é assim.  

Antônio balançou a cabeça lentamente, como se carregasse o peso do mundo: — Não foi essa a vida que eu quis para você.  
— Eu sei — respondeu Kássio, o tom mais calmo, mas ainda firme. — Mas é a vida que eu escolhi. E eu não vou abrir mão dela.  

— Filho, você não vai dar conta... — disse Antônio, com a voz baixa, quase um sussurro.  
— Vou sim! — Kássio rebateu, sem hesitação. — Você me criou para ser um homem forte e trabalhador, não foi? Eu posso, eu quero, e eu vou conseguir. Só peço que não interfira mais na minha vida, pai. Porque eu não vou permitir.  

Antônio abaixou o olhar, derrotado: — Não vou. Mas quero que saiba que, quando você precisar de ajuda, não hesite em me procurar.  
— Não vou precisar de ajuda. Agora, se me der licença, preciso procurar um trabalho.  

Antônio levantou as sobrancelhas, intrigado: — Você não precisa procurar trabalho. Pode trabalhar na empresa da nossa família, se quiser.  
Kássio hesitou por um momento: — Eu... não sei.  
— Você pode pelo menos pensar? — insistiu o pai.  
— Talvez — respondeu Kássio, sua voz agora mais hesitante.  
Antônio se aproveitou da brecha: — Consulte sua namorada. Se ela realmente quer o melhor para você, sabe que isso é o melhor.  

Assim que Antônio foi embora, uma inquietação tomou conta de mim. O pai de Kássio havia conseguido plantar uma semente de dúvida no coração dele. Por um lado, achava bom que os dois se aproximassem. Mas, por outro, não suportava a ideia de Antônio ainda conseguir influenciar as decisões do meu noivo.  

— Amor, você vai aceitar trabalhar com seu pai? — perguntei, tentando esconder minha ansiedade.  
— Eu não sei. Conversei com minha mãe, e ela acha que eu deveria aceitar. Todo mundo me diz para trabalhar na empresa, porque um dia ela será minha e da minha irmã. Mas eu não sei se quero seguir os passos do meu pai.  

Segurei a mão dele e, com o coração apertado, disse: — Quer saber a minha opinião? Acho que você deveria aceitar essa oportunidade, pelo menos até encontrar um emprego que realmente ame. Não que eu concorde com o seu pai, mas... é o seu futuro. Quero que saiba que vou te apoiar, seja qual for sua decisão.  

— Se eu aceitar, estarei provando para ele que não posso vencer por mim mesmo — confessou Kássio, sua voz carregada de incerteza.  
— Ou, talvez, esteja apenas mostrando maturidade. Não pense nisso como uma escolha definitiva, mas como um degrau. Uma experiência temporária. Algo como esses empregos de fim de ano.  

Ele deu uma risadinha: — Você tem dezessete anos e já está planejando o futuro. Isso é engraçado.  
— Eu sou normal? — brinquei, tentando aliviar o clima. — Às vezes, me sinto uma adulta precoce!  

— Se você se arrependeu, a gente pode adiar o casamento — sugeriu ele, com um sorriso gentil.  
— Não! — respondi, categórica. — Não estou arrependida. Sei exatamente o que quero. Quero ficar com você.  
— Eu também quero ficar com você — disse ele, me abraçando.  

A escola nos esperava, mas minha mente continuava girando em torno do que Antônio havia dito. O que mais ele seria capaz de fazer?  

sábado, 11 de janeiro de 2014

Tempos de Colegial Capítulo 80

Promessas de amor e conflitos 


— Minha nossa... está falando sério? — perguntei, o coração batendo mais rápido.  
— É claro que estou falando sério! — respondeu Kássio, com firmeza.  
Olhei fundo nos olhos dele, desconfiada: — É claro que está. Você não brincaria com uma coisa desse tipo. Ou brincaria? Kássio, se você estiver brincando comigo, juro que vai se arrepender.  
Ele sorriu de canto, mantendo a serenidade: — Calma, zangada. Eu não estou brincando com você. Estou falando sério.  
— É mesmo? — perguntei, tentando conter um sorriso ansioso.  
Ele assentiu, e algo na expressão dele dissipou qualquer dúvida.  
— Então repete, por favor. Quero ouvir de novo — pedi, como se aquelas palavras fossem a garantia do meu próprio futuro.  
Kássio segurou minhas mãos e disse, com a voz carregada de emoção: — Emília, eu quero passar o resto dos meus dias com você. Quero poder dormir ao seu lado todas as noites e, quando acordar, saber que você ainda estará lá, me olhando, sorrindo. Quero sair para o trabalho e ter a certeza de que, ao voltar, você estará em casa, me esperando.  
— Ai, meu amor! Eu te amo... te amo... te amo! — exclamei, enquanto o abraçava com força. — E pode ter certeza de que sempre estarei ao seu lado. Sempre, sempre, sempre vou te esperar e te amar até o fim dos meus dias.  

Soltei uma risadinha em meio às lágrimas e brinquei: — Sei que você será meu super-homem para me salvar das baratas monstruosas que invadirem nosso lar!  
Ele riu, arqueando uma sobrancelha: — Baratas monstruosas?  
— Tá, eu sei que isso foi uma coisa estúpida de se dizer — admiti, envergonhada. — Mas o importante é que você será sempre meu herói. Te amo!  

Antes que pudesse dizer mais algo, vi Kássio ajoelhar-se à minha frente. Meu coração quase parou. Seus olhos brilhavam de um jeito que nunca havia visto antes, e a emoção transbordava em cada gesto.  

— Emília, meu amor, minha vida... aceita se casar comigo? — disse ele, com a voz firme, mas as mãos trêmulas enquanto segurava um anel reluzente.  
— Aceito! É claro que aceito! Não há nada neste mundo que eu queira mais do que me casar com você — respondi, emocionada, com as lágrimas escorrendo pelo rosto.  

Enquanto ele colocava o anel no meu dedo, suas mãos tremiam tanto que quase não acertava. Mas nada disso importava. Aquele momento ia muito além de qualquer imperfeição. Quando finalmente seus lábios tocaram os meus, senti como se o mundo inteiro tivesse parado. Suas mãos seguravam meu rosto com firmeza, enquanto seus braços envolviam minha cintura, me apertando contra o peito dele.  

Quando me afastei para olhar nos olhos dele, mal consegui conter a felicidade: — Eu sou a mulher mais feliz do mundo. Sabe por quê?  
Ele sorriu, ainda ofegante: — Por quê?  
— Porque eu tenho você. Porque você me faz feliz. Porque você me faz forte, me faz ser quem eu sou. Não consigo mais viver sem você, e nem quero viver sem você. Eu te amo.  
Kássio acariciou meu rosto e respondeu: — Eu também te amo. Você é minha vida, Emi. Sem você, eu simplesmente não existo.  

Comecei a rir, cheia de emoção: — Posso gritar? Quero gritar para o mundo inteiro saber o quanto estou feliz.  
— Ei, você ficou louca? — disse ele, rindo comigo.  
— Talvez um pouco! — respondi, brincando. — Mas eu quero que todos saibam que vou me casar com o melhor homem do mundo!  

Nos abraçamos novamente, rindo como crianças até que um pensamento cruzou minha mente: — Amor, seu pai sabe que vamos nos casar?  
Kássio hesitou por um momento: — Não, e ele não precisa saber. Ele não irá ao nosso casamento.  
Franzi a testa, confusa: — Mas ele é seu pai. A sua família precisa compartilhar esse momento conosco.  
— Não, Emi. Ele não precisa vir.  
Tentei entender sua relutância: — Por que não? Você tem vergonha de mim, é isso?  
Ele se apressou em negar: — Claro que não, Emília. Não é nada disso.  
— Então, o que é? Por que não me conta?  
Ele desviou o olhar, suspirando: — Você não entenderia...  

Segurei sua mão com delicadeza e insisti: — Deixa essa parte comigo. Só precisa me contar, e eu prometo que vou entender.  
Ele fechou os olhos por um instante e depois respondeu com um tom ressentido: — Meu pai não aprova nosso relacionamento. Ele nunca aceitaria.  
— Mas ele é seu pai, Kássio. Não espero que ele vá, mas precisamos convidá-lo. É o certo a se fazer.  
Ele suspirou e, finalmente, admitiu: — Você tem razão, amor. Me perdoa por ter reagido assim.  

Sorri, acariciando seu rosto: — É, você foi um idiota. Mas é o idiota que eu amo.  
Ele riu e respondeu com doçura: — Esse idiota aqui também te ama.  

Enquanto ainda comemorávamos, ouvimos uma batida na porta. Kássio levantou, visivelmente surpreso ao abrir. Ficou pálido ao ver quem estava ali.  
— Pai? O que você está fazendo aqui?  

Antônio cruzou os braços, sua voz séria e grave: — Eu vim conversar com você.  

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Estranhos Conhecidos Capítulo 07


Daniel estendeu a mão hesitante através do espaço íntimo que os separava, seus dedos encontrando os de Mila. Por um breve instante, suas mãos se uniram, um elo silencioso se formando. Então, com uma ternura crescente, suas mãos deslizaram para a cintura dela, puxando-a para mais perto, até que seus corpos se roçaram suavemente. Ele roçou seu rosto contra a maciez da face dela, buscando o néctar de seus lábios. O beijo veio lento, quase reverente, e uma onda de calor desconhecida, intensa e doce, irradiou dos lábios de Mila, tingindo suas bochechas de um rubor apaixonado.
Com um suspiro hesitante, Mila afastou seus lábios dos dele, seus pulmões implorando por ar. Seus dedos se emaranharam nos cabelos negros de Daniel, puxando-o de volta para ela, faminta por mais. O segundo beijo foi mais urgente, uma chama mais intensa dançando em seus lábios, acendendo um fogo similar no peito de Mila. Uma revoada de borboletas agitadas promoveu um turbilhão em seu estômago, roubando-lhe o fôlego mais uma vez. Ela se afastou, ofegante, e os lábios quentes de Daniel encontraram o vale macio de seu pescoço, deixando ali um rastro de calor. Aquele momento mágico foi abruptamente interrompido pelo toque estridente de um celular. Os lábios de Daniel se separaram dos dela, deixando um vazio súbito.
— Meu telefone está tocando... — Mila murmurou, a voz ainda embargada pela recente torrente de sensações.
— Atenda. Eu espero lá fora. A voz de Daniel era um sussurro rouco, carregado de expectativa.
— Alô? Tio?! O que aconteceu? A preocupação tingiu a voz de Mila.
— A dona Maura me ligou... disse que o Daniel ouviu um barulho aí em casa. A voz do tio Lucas ecoava preocupada do outro lado da linha.
— Barulho? A testa de Mila se franziu.
— Sim. Está tudo bem com você? A pergunta carregava um peso de apreensão.
— Está sim, tio. Não se preocupe. Foi só o gato da vizinha... fugindo de um cachorro. A explicação soou um pouco apressada.
— Como você sabe? Dona Maura disse que você estava dormindo. A desconfiança era evidente na voz do tio.
— Ela se enganou, tio Lu. Eu não queria incomodá-la porque ela estava tão cansada, que acabou dormindo no sofá. Então subi pro meu quarto para me deitar. Mila tentava manter a voz calma.
— Ela disse que o Daniel estava aí em casa. O que ele estava fazendo aí? A pergunta era direta, acusatória.
— Eu não sei, titio... eu não o vi. A mentira deslizou por seus lábios com um nó na garganta.
— Ok, então boa noite. O tom do tio Lucas ainda era hesitante.
— Boa noite, tio Lu. O senhor vem para casa ainda hoje? Havia uma ponta de esperança na voz de Mila.
— Provavelmente não. Eu tenho que desligar, a gente se fala quando eu chegar. Tchau. O tio Lucas encerrou a ligação abruptamente.
— Tchau, tio. Boa noite. — Essa dona Maura... o que tem de chata tem de fofoqueira! Acredita que ela contou ao meu tio que você estava aqui? — Mila disse, um misto de irritação e diversão colorindo sua voz enquanto Daniel retornava ao quarto.
— Eu tenho que ir agora. A urgência na voz de Daniel contrastava com o desejo em seus olhos.
— Ah, não... fica só mais um pouquinho. O pedido de Mila era um sussurro carregado de súplica.
— Não posso. Tenho que acordar cedo amanhã. A responsabilidade o chamava.
— Lá na festa você não tinha que acordar cedo. A ironia na voz de Mila era um reflexo de sua decepção.
— Lá na festa eu estava com você... e não podia te deixar sozinha. Quero esclarecer uma coisa com você, Mila. Eu não sou do tipo pegador, entende? Quando gosto de uma garota, não perco tempo com aventuras vazias. Se estou aqui com você, é porque eu gosto de você... de você e de mais nenhuma outra garota. É com você que eu sempre quero estar. Se fôssemos as únicas pessoas no mundo, eu não sentiria falta de mais ninguém, porque com você... eu me sinto completo. A intensidade das palavras de Daniel pairou no ar.
— Uau! Isso foi... intenso! — Mila disse, a ponta dos dedos roçando suavemente o rosto dele. — Desculpe-me, eu não queria insinuar nada de errado. Acontece que eu tenho o dom de falar besteira... Quando chegamos à festa e todo mundo ficou olhando, eu fiquei muito feliz. Não porque disseram que eu estava linda, mas porque eu estava com você. E todos viram que eu estava com você. Eu queria que todos vissem que você era meu. A confissão de Mila era um fio de vulnerabilidade.
— Eu também senti o mesmo. Não quero que você tenha ciúmes, Mila. Eu não te dei motivos para isso e jamais daria. A sinceridade de Daniel era um bálsamo para a insegurança dela.
— Eu sei que não devo... mas quando te vi com... ela... Senti como se perdesse uma parte de mim. Senti-me vazia, incompleta. Eu não sei bem como explicar... só sei que quando estou com você, eu me sinto plena. É como se eu precisasse de você para respirar, meu coração pulsa mais forte quando você está perto. Minha pulsação acelera só de pensar em você. A voz de Mila era um sussurro apaixonado.
As mãos de Daniel encontraram os cabelos macios de Mila, e com seus corações à beira da combustão, eles se beijaram impetuosamente. O calor os atravessou como um turbilhão avassalador enquanto ele puxava o rosto dela para mais perto, seus lábios se fundindo em uma dança urgente. Suas respirações ecoavam altas, quase como um ronco apaixonado.
Seus lábios se separaram novamente, deixando um rastro de calor e desejo.
— Eu tenho que ir agora... — Daniel disse, a voz rouca e entrecortada.
— Tenha doces sonhos, meu amor. O sussurro de Mila era carregado de carinho.
— Vou sonhar com você. Agora é melhor eu ir... senão seu tio não vai gostar nada. Um sorriso triste curvou os lábios de Daniel.
— Essa vai ser uma longa noite... — Mila resmungou, a sonolência começando a nublar seus sentidos.
— Boa noite, Mila. A voz de Daniel era um afago na escuridão.
— Boa noite, Daniel. O eco de sua voz pairou no ar.
Apesar de seus pensamentos ansiosos, o sono envolveu Mila rapidamente, como um cobertor quente. A noite não se arrastou como ela temia. Ela acordou com os primeiros raios de sol, o quarto banhado em uma luz suave e dourada. Seus olhos seguiram fixamente os padrões de luz dançando na janela. O sol já estava alto no céu quando finalmente se decidiu a levantar e preparar o café da manhã.
O som da campainha ecoou pela casa, e o coração de Mila disparou, a imagem de Daniel preenchendo sua mente. Ela correu animada para a porta, ansiosa pelo reencontro, mas a figura que encontrou a surpreendeu.
— Meu amor, você chegou cedo! — exclamou, jogando os braços ao redor da cintura da figura familiar.
— Nossa... quanto amor! Eu também te amo, sobrinha querida. A voz calorosa do tio Lucas a trouxe de volta à realidade.
— Tio Lu?! Eu estava preparando o café da manhã, espero que esteja com fome. Não tinha certeza se o senhor viria tão cedo, então não tem muita coisa além de café, leite e torradas. A decepção era sutil em sua voz.
— Não tem problema, o importante é que finalmente vou poder dar a atenção que você tanto queria. O tio Lucas sorriu, alheio à turbulência interna de Mila.
— Que legal! — Mila forçou um sorriso, a ironia quase escapando. Justo agora!, pensou, o desânimo a invadindo.
— Então, o que você quer fazer? Tirei um tempinho só para você. O tio Lucas parecia genuinamente animado.
— Só para constar... isso não é algum tipo de punição, é? Mila sondou, uma ponta de apreensão em sua voz.
— Punição? Por que eu puniria você? Por acaso você aprontou algo que eu não estou sabendo? O tio Lucas franziu a testa, confuso.
— Não, tio... é que outro dia eu falei que sempre ficava sozinha. De repente, o senhor pode ter se incomodado com isso e... quis me punir. Só isso. Mila tentou soar casual.
— Não, sua tolinha. Eu tirei um dia de folga, e faz tempo que não vejo minha sobrinha favorita. Se quiser, posso te levar ao cinema para ver aquele filme que você está louca para ver. O tio Lucas tentava animá-la.
— Eu já vi esse filme, tio Lu. A resposta de Mila foi monótona.
— Oh, é uma pena. E que tal...? O tio Lucas tentava encontrar uma alternativa.
— Olha, tio... eu aprecio que tenha tirado o dia de folga para me dar um pouquinho de atenção, mas eu já tenho planos e sei que tem uma moça que precisa mais da sua atenção do que eu. — Mila o interrompeu suavemente, apontando para uma fotografia na estante da sala. — Isso mesmo, meu tio querido. A Cíntia já ligou uma porção de vezes. Parece que ela já voltou de viagem.
— Droga! O tio Lucas deixou escapar, o rosto se contraindo levemente.
— Pelo visto, o senhor não gostou da notícia. Mila não pôde deixar de notar sua reação.
— Não é isso... acontece que eu não me lembrei de ir buscá-la no aeroporto. Ela deve estar furiosa. A culpa era evidente em sua voz.
— Que coisa feia, tio Lu! O senhor tirou o dia para ficar comigo e esqueceu-se da Cíntia? Isso não se faz, hein, querido tio! Mila tentou conter o riso.
— Não tem graça, Mila! O tio Lucas revirou os olhos.
— Ah, tem sim! Desculpe-me, tio Lu, mas eu tenho que ir. A gente se vê depois. Mila pegou sua bolsa, a urgência em seus movimentos.
— Espera aí, mocinha! Aonde você pensa que vai? O tom do tio Lucas era agora mais sério.
— Vou sair com a Jéssica. A resposta de Mila foi evasiva.
— Não foi isso que eu perguntei. Eu quero saber aonde você pensa que vai. O tio Lucas cruzou os braços, o olhar inquisitivo.
— Tio querido, eu vou à biblioteca com a Jéssica, porque temos que apresentar um trabalho importante sobre carboidratos, e eu tenho que estar preparada. Mila tentava manter a compostura.
— E você vai à biblioteca usando isso? — O tio Lucas apontou para a saia de Mila, que parecia mais um cinto de tão curta. — Você não vai sair de casa usando minissaia.
— O quê?! Ah, tio Lu, não embaça!! A frustração de Mila era palpável.
— Olha como fala comigo! Eu não quero que você use esse tipo de roupa, ainda mais com esse Daniel circulando pela casa. O tom do tio Lucas era firme.
— O Daniel não fica “circulando pela casa”. O senhor está ficando biruta. É melhor ligar para a Cíntia, porque ela sim precisa da sua atenção. Mila rebateu, a impaciência crescendo.
— Foi você quem disse que estava cansada de ficar sozinha. O tio Lucas lembrou-a de sua própria queixa.
— Estava... do verbo não estou mais. A resposta de Mila era seca.
— Você está muito insolente para o meu gosto. O tio Lucas estreitou os olhos.
— Tio, me dá licença que eu já estou atrasada. Mila tentou encerrar a conversa.
— Tudo bem, mas a gente se acerta na volta. A promessa do tio Lucas pairava no ar.
Mila detestava mentir, e a situação a forçou a uma encruzilhada delicada, uma decisão que poderia abalar seu relacionamento com Daniel. Consciente das possíveis consequências, ela respirou fundo e decidiu revelar a verdade ao tio.
— Já que esse assunto não vai acabar aqui, eu vou lhe contar a verdade, tio. Daniel e eu estamos namorando. E, mesmo que o senhor seja contra, eu não vou deixá-lo, em hipótese alguma. Eu já sou grande e tenho consciência do que é melhor para mim. E tem mais, eu não vou admitir que o senhor venha com caretice para o meu lado. Daniel e eu nos gostamos e vamos ficar juntos, o senhor querendo ou não. A declaração de Mila era firme, desafiadora.
— Nossa... agora eu sei de onde vem tanta petulância! Escuta, Mi, eu jamais atrapalharia a sua vida. Não sou desse tipo de pessoa que fica “embaçando” o namoro alheio. — O tio Lucas disse, esforçando-se para manter a voz calma, embora uma ponta de surpresa ainda pairasse no ar.
— Eu pensei que sim, porque o senhor não queria nem hospedá-lo na nossa casa. Mila confessou sua insegurança.
— Porque eu pensava que ele fosse um completo estranho. E a gente não o conhecia, não sabia nada sobre ele. Ele poderia estar mentindo em tudo o que disse. Mas agora... tenho motivos para não desconfiar dele. O tom do tio Lucas era hesitante, como se ponderasse algo.
— Que motivos? Tio Lu, o que o senhor está me escondendo? A curiosidade de Mila foi despertada.
— Não estou escondendo nada, porque não tenho nada a esconder. Só acho que se ele conheceu sua mãe... não deve ser um garoto ruim. O tio Lucas desviou o olhar brevemente.
— Humm, sei! Fala a verdade, tio Lu. Eu sei que o senhor está mentindo, porque quando mente para mim, você não me olha nos olhos. Mila o confrontou diretamente.
— Mila, eu sou o adulto aqui, então é você quem dá explicações, não eu. Pronto, morreu o assunto! Já que você não precisa da minha companhia, vou procurar a Cíntia e tentar reparar o meu pequeno erro. O tio Lucas tentou encerrar a conversa.
— Pequeno? — Mila perguntou, lutando para não rir da ironia da situação.
— Minúsculo. O tio Lucas fez um gesto com os dedos.
— Boa sorte, tio Lu! Mila não conseguiu conter um sorriso.
— Obrigado, eu vou precisar. O tio Lucas suspirou, resignado.

A tensão pairava no ar, mas a revelação de Mila parece ter amolecido o coração do tio Lucas. Será que ele realmente aceitará o namoro dos dois? Não perca o próximo capítulo para descobrir!

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Tempos de Colegial Cap. 79

Entre Sonhos e Realidade 


Andreia perguntou, visivelmente desconfiada: — Um show?! Como assim, um show? Emi, você tem ideia do que é necessário para organizar algo assim?  
— Não faço ideia — respondi com um sorriso despreocupado —, mas isso não é problema. É só dar uma pesquisada básica e pronto!  
Márcia arregalou os olhos, espantada com a minha resposta: — Pesquisada básica? Emi, você está louca! Fazer um show exige muito dinheiro, muito planejamento. Isso não é brincadeira!  
Revirei os olhos, sem conter uma risada: — Ai, Márcia, calma! Era só uma brincadeira. Não acredito que você caiu nessa. Até parece que eu teria coragem de subir num palco e cantar para uma multidão!  
Márcia balançou a cabeça, ainda perplexa: — É que você falou com tanta convicção que eu realmente achei que estava falando sério.  
Suspirei, tentando desfazer o mal-entendido: — Nunca faria algo assim! Só de imaginar, acho que congelaria no palco ou nem conseguiria entrar!  
Andreia, com um tom sarcástico, acrescentou: — Márcia, se você levar tudo o que a Emi fala a sério, vai acabar ficando maluca!  
Márcia olhou para Andreia, ainda confusa: — Mas você confirmou o que ela disse!  
Andreia deu de ombros, rindo: — Claro! Eu queria ver até onde ela iria com essa história.  
Sorri, reconhecendo meu próprio hábito de fantasiar: — É verdade, minha cabeça é cheia dessas loucuras. Já quis ser bailarina, modelo, atriz, professora, médica... Esses devaneios aparecem na minha mente o tempo todo. Mas nunca é nada sério, bobinha!  
Márcia ergueu o olhar, séria: — Eu não sou “bobinha”, Emi. Só gosto de acreditar nas pessoas.  
Peguei sua mão, arrependida: — Me desculpa, amiga. Não quis te ofender. Mudando de assunto... eu vou pedir o meu Kássio em casamento.  
Márcia riu e estreitou os olhos, desconfiada: — Ah, vá! Agora eu não caio mais nessa.  
Respondi com firmeza: — Dessa vez é verdade. Se ele não tem coragem de me pedir, eu mesma vou fazer o pedido. Já estou cansada de esperar.  
Andreia arqueou a sobrancelha e soltou um riso: — Cansada? Vocês nem estão juntos há um ano!  
— Mas já é tempo suficiente para ele saber que eu sou a mulher da vida dele — rebati, cheia de convicção.  
Andreia se acomodou na cadeira, tentando conter o riso: — Emi, você está me fazendo rir!  
— Pois podem rir à vontade — respondi, séria —. Eu já tenho tudo planejado.  
Andreia não perdeu a oportunidade de questionar: — E se ele não aceitar?  
Olhei para ambas, decidida: — Por que ele não aceitaria? Mas, se isso acontecer, será a maior burrice da vida dele. Meninas, parem de pensar negativamente. Meu Kássio me ama, e tenho certeza de que é comigo que ele quer ficar.  
Andreia inclinou a cabeça, ainda cética: — Você tem tanta certeza assim?  
— Claro que tenho, Andy! — respondi, irritada com sua implicância.  
Márcia, com um tom mais calmo, tentou me alertar: — A Andreia está certa, Emi. Você pode estar criando expectativas que talvez não correspondam à realidade.  
Levantei com impetuosidade, encerrando o assunto: — Vocês vão ver quando o meu Kássio aceitar. Aí veremos quem estava certa nesta história.  

Saí dali furiosa, magoada pelas dúvidas que minhas amigas haviam plantado em mim. No fundo, porém, uma pequena parte da minha mente começou a questionar. E se elas estivessem certas? Por que o Kássio nunca falou sobre casamento? Será que ele aceitaria meu pedido?  

Passei a noite inteira acordada, atormentada por esses pensamentos. Embora eu fosse jovem demais para pensar em casamento, tinha certeza de que ele era o homem da minha vida. Mas algo dentro de mim murmurava que talvez ele não sentisse o mesmo. Resolvi enfrentar a dúvida e fui falar com ele.  

Falei, tentando manter a calma: — Kássio, precisamos conversar. É algo muito importante, para mim e para você.  
Ele me olhou com preocupação e segurou minha mão: — Claro, linda. O que houve?  
Minha voz saiu hesitante: — Você me ama?  
— Claro que amo! — respondeu ele sem pensar —. Por que está me perguntando isso?  
Respirei fundo e desabafei: — Porque você diz que me ama, mas nunca falou em casamento. Isso me deixa... confusa.  
Kássio ficou em silêncio, e aqueles segundos pareciam durar uma eternidade. Meu coração apertou, e eu comecei a pensar que talvez tudo estivesse prestes a desmoronar.  

Finalmente, ele disse, com um tom firme: — Emi, quem disse que eu não quero me casar com você?  
Olhei para ele, surpresa: — Então por que nunca falou nada? Estamos juntos há tanto tempo, e você nunca mencionou nada sobre isso.  
Ele sorriu e respondeu com leveza: — Porque eu queria que fosse uma surpresa. Mas você é tão apressada que quase estragou tudo!  
Envergonhada, abaixei os olhos: — Me desculpa, eu não queria te pressionar. É só que... eu fiquei insegura.  
Ele segurou meu rosto delicadamente: — Ei, calma. Eu te amo, Emi. E sim, quero me casar com você. Mas eu preciso de um pouco mais de tempo, para fazer tudo do jeito certo. Só te peço paciência, tá?  
Suspirei, aliviada: — Tudo bem, mas... o que eu digo para as minhas amigas?  
Ele sorriu e, com a mesma tranquilidade, disse: — Você não precisa dizer nada a elas. Esse é um assunto só nosso. Mas tem uma coisa que você precisa saber...  
Olhei para ele, curiosa: — O quê?  
Ele segurou minha mão com firmeza e sorriu: — Eu quero passar todos os dias da minha vida ao seu lado.  

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Estranhos Conhecidos Capítulo 06


O aroma sutil de cloro ainda pairava no ar quando Daniel finalmente se instalou no anexo da piscina. Contudo, a sombra da inflexibilidade do tio Lucas pairava sobre a recém-descoberta liberdade de Mila. A severidade de dona Maura, designada como guardiã temporária, contrastava fortemente com o espírito livre da garota. Felizmente, a rigidez da senhora não era páreo para a alegria contagiante da turma de Mila, que a convidou para uma festa.
Naquela fatídica noite, enquanto o tio Lucas cumpria seu plantão, dona Maura, alheia aos planos que se tramavam, cochilava profundamente no sofá. A oportunidade acendeu um brilho travesso nos olhos de Mila. Com um gesto silencioso, chamou Daniel para a cozinha, o convite para a aventura dançando em seus lábios.
Num movimento fluido, o roupão escorregou de seus ombros, revelando um segredo vibrante. Um vestido cor-de-rosa, como um sussurro de verão, abraçava suas curvas com uma delicadeza etérea.
— Ah, então essa maquiagem toda tinha um propósito! — exclamou Daniel, a surpresa colorindo sua voz.
— Vamos? — o convite era um fio de expectativa no ar.
— E se dona Maura acordar? A voz de Daniel carregava uma ponta de apreensão.
— Tio Lu confiou em mim, então eu já cuidei de tudo. Vários travesseiros aconchegados sob o lençol, uma peruca com a cor exata dos meus cabelos repousando sobre eles... Ela não vai desconfiar. E você? Ela nunca sequer olhou para a casa da piscina, relaxa. Vamos, vai ser demais!
— Mas... e se o seu tio voltar? A dúvida persistia.
— Sem "e se"! Meu tio não volta hoje. Anda logo, ou vou começar a achar que você é mesmo um chato de galocha! O tom de Mila era divertido, mas com uma pitada de impaciência.
— Tá bom, tá bom! Daniel se rendeu com um sorriso.
— Ótimo! Vai se aprontar, te espero lá fora. Sem carro, pra não acordar a pluma adormecida da dona Maura. Shhh! Mila sibilou, o dedo nos lábios.
— Só uma coisa... — Daniel sussurrou, aproximando-se.
— O quê?
— Eu não tenho convite. Uma ruga de preocupação surgiu na testa de Daniel.
— Ai, Daniel, você sempre complica tudo! Eu tenho convite, e a lista de acompanhantes é generosa. Mila revirou os olhos, mas um sorriso logo suavizou suas feições.
— Então te encontro lá fora. A promessa pairava entre eles.
— Seja breve! O pedido de Mila era um misto de urgência e excitação.
Enquanto a ansiedade borbulhava em suas veias, Mila acenou para um táxi. Para sua surpresa, Daniel já surgia na esquina, a camisa azul bebê contrastando elegantemente com o terno preto, a ausência da gravata conferindo um ar de rebeldia charmosa.
— Preciso te dizer uma coisa... Não tive chance lá dentro. A voz de Daniel era um murmúrio carregado de significado.
— O quê? Dona Maura acordou? O pânico brilhou nos olhos de Mila.
— Não, não é nada disso. O que eu não disse é... A pausa de Daniel era carregada de uma eletricidade palpável.
— O quê? Estou com a maquiagem borrada? Meu cabelo está um ninho? A insegurança de Mila era um sussurro hesitante.
— Não! Você está... linda. Era isso. Absolutamente linda. A intensidade do olhar de Daniel fez o coração de Mila palpitar.
— Oh... obrigada! Você também está muito bonito. As outras garotas vão morrer de inveja quando me virem chegar com você. O calor subiu ao rosto de Mila, tingindo suas bochechas de um rosa suave.
— Então vamos logo acabar com a agonia delas. O humor de Daniel era um alívio divertido na tensão crescente.
A gargalhada de Mila foi abafada pelo súbito vislumbre de dona Maura espreitando pela janela. O medo agiu como um propulsor, impulsionando os dois em uma fuga silenciosa até a esquina, onde o táxi os aguardava.
— Isso é tão... emocionante! Nunca fugi de casa antes. Tomara que a dona Maura não perceba o buraco de travesseiros na minha cama. A adrenalina da aventura faiscava nos olhos de Mila.
— A gente não precisava ter fugido... Daniel ponderou, mas a intensidade do momento o impediu de elaborar.
— Tá brincando, né? Meu tio jamais me deixaria ir a essa festa. Ainda mais... com você! A afirmação de Mila era carregada de uma verdade tácita.
— Por que não comigo? A curiosidade picou Daniel. Por que tio Lucas não me aprovaria? A pergunta ecoava em sua mente.
— No que você está pensando? Mila percebeu a breve ausência no olhar de Daniel.
— Nada... O táxi está demorando, não acha? Por que não vamos de moto? Posso empurrar ela até aqui. A sugestão de Daniel era um fio de impaciência.
— Eu sei que está demorando, mas moto? Nem pensar! Vai arruinar meu cabelo, e eu me recuso a chegar despenteada. E, por favor, que não nos atrasemos! Odeio chegar atrasada. A preocupação de Mila era genuína.
— Nesse caso... talvez seja bom chegarmos um pouco depois. Um sorriso enigmático brincou nos lábios de Daniel.
— Por quê? A curiosidade de Mila foi despertada.
— Porque quando chegarmos, todos os caras vão ver que a garota mais linda da festa está... comigo. A confiança de Daniel era um calor reconfortante.
— Ai, Daniel... muito obrigada! Uma onda de calor invadiu o rosto de Mila.
— O táxi está vindo. A urgência os impulsionou de volta à frente da casa, esgueirando-se nas sombras para evitar os olhos atentos de dona Maura.
— Finalmente! O alívio de Mila era palpável.
A chegada foi exatamente como haviam previsto. Um silêncio repentino engoliu a música, e todos os olhares se voltaram para a dupla que irradiava uma energia vibrante.
A onda de atenção diminuiu, permitindo que a festa os envolvesse.
— Mila, quer dançar? O convite de Daniel era um sussurro suave na multidão.
— Quero! O rosto de Mila irradiava alegria pura.
Enquanto seus corpos se moviam em sincronia, alheia à tempestade que se aproximava, Gisele surgiu como uma sombra, um "tropeço" calculado resultando em líquido escuro manchando o vestido de Mila. A surpresa a deixou momentaneamente atordoada.
— Oh, me desculpe, Mila! Que desastrada eu sou! Tropecei e... ai, que pena do seu vestido. A voz de Gisele era carregada de uma falsa preocupação.
— Tudo bem, Gisele. Sei que não foi de propósito. A resposta de Mila era um escudo de cortesia por trás do qual a irritação fervia.
— É melhor você limpar logo, antes que manche. Senão, vou me sentir ainda mais culpada. A sugestão de Gisele tinha um tom venenoso.
— Já volto, Daniel. Guarda essa dança pra mim. Mila se desvencilhou dos braços dele com um sorriso forçado.
No refúgio do banheiro, Jéssica encontrou a amiga, a máscara de Mila rachada, revelando a fúria borbulhante.
— Amiga, o que aconteceu? Que cara é essa? A preocupação de Jéssica era um afago.
— Aquela idiota da Gisele... derramou bebida no meu vestido! Os olhos de Mila brilhavam com raiva contida. — Que ódio daquela nojenta!
— Calma, amiga. Não deixa ela te atingir. E, principalmente, não deixa ela perceber que conseguiu. Jéssica tentava acalmar os ânimos exaltados.
— Eu não consigo! Parece que vou explodir de raiva. A voz de Mila tremia, um esforço para manter a compostura. — Minha vontade é de arrancar os cabelos dela!
— O que você vai fazer é respirar fundo, limpar esse vestido maravilhoso e aproveitar essa festa que está incrível. O tom de Jéssica era firme, encorajador. — E, por favor, não deixa ninguém te ver assim. Raiva é feio, e você tem que continuar linda e maravilhosa para dançar com aquele príncipe encantado que veio com você.
— Você tem razão... toda a razão. Não vou deixar aquela estúpida estragar o resto da minha noite com o Daniel. Mila respirou fundo, a determinação renascendo em seus olhos.
— Isso! Agora vai lá e dança com ele até seus pés doerem. Jéssica sorriu, orgulhosa da amiga.
Com o vestido razoavelmente limpo, Mila retornou à pista de dança, a expectativa de reencontrar Daniel acendendo um brilho em seus olhos. Mas, ao ser avistada por Gisele, o choque a paralisou. Um beijo ardente era trocado entre Daniel e a intrusa, esmagando a alegria de Mila em pedaços. Sem conseguir conter as lágrimas que agora jorravam, ela correu para a saída, buscando a invisibilidade na multidão. Daniel a viu partir e tentou segui-la, mas os braços de Gisele o prenderam.
— Ei, aonde você pensa que vai? Gisele o puxou para perto, o corpo colado ao dela. — Não vai me deixar sozinha na pista, vai?
— Não... — Daniel sussurrou, o olhar fixo na porta por onde Mila desaparecera.
Enquanto a música os envolvia, Mila alcançava a segurança da rua, correndo pelas sombras até sua casa. A sorte parecia estar ao seu lado, pois dona Maura dormia profundamente. Sem hesitar, Mila escalou a janela de seu quarto, buscando o conforto familiar de sua cama, onde as lágrimas finalmente encontraram vazão no travesseiro macio.
Assim que a oportunidade surgiu, Daniel correu para casa, o coração apertado. Dona Maura parecia adormecida em seu sono pesado. Com cuidado, abriu a porta, agradecendo mentalmente pelas dobradiças silenciosas. Moveu-se pela sala como uma sombra, em direção às escadas, as costas raspando a parede. Mas o destino tinha outros planos. Dona Maura acordou, sobressaltada pela figura hesitante subindo os degraus.
— O que você está fazendo aqui? A voz de dona Maura era um misto de surpresa e apreensão.
— Ouvi um barulho e... vim ver se estava tudo bem. Daniel respondeu, o olhar fixo na senhora, uma ponta de ansiedade na voz.
— E então? A pergunta era um eco no silêncio da noite.
— Nada... Não encontrei nada aqui embaixo, então ia subir para verificar o andar de cima. Espero que a Mila não tenha acordado com todo o barulho.
— Não se preocupe, eu vejo se está tudo bem lá em cima. Dona Maura já subia as escadas, em direção ao quarto de Mila.
A senhora vasculhou o andar superior, cada canto, sem encontrar nada fora do lugar. Bateu na porta do quarto de Mila, chamou, mas o silêncio foi sua única resposta. Deve estar dormindo... Não vou incomodar. O cansaço a venceu.
— Escute, rapazinho. Vou para minha casa, estou exausta. Amanhã cedo venho ver como a menina está. Vá para casa você também, já é muito tarde.
— Eu acompanho a senhora até em casa. A oferta de Daniel era um fio de esperança.
— Oh, muito obrigada. Que gentileza a sua! Dona Maura sorriu, aliviada.
— Disponha.
Daniel caminhou ao lado de dona Maura, certificando-se de que ela estaria segura em sua casa e, principalmente, que não retornaria para interromper o encontro que ansiava ter com Mila. Assim que a porta se fechou atrás da senhora, ele correu de volta para a casa da piscina, contornou a casa principal e, com agilidade, escalou a janela do quarto de Mila.
Mila se virou bruscamente, o susto estampado em seu rosto, os olhos marejados encontrando a figura de Daniel.
— O que você está fazendo aqui? A voz de Mila era fria, cortante.
— Eu vim explicar o que aconteceu na... Daniel tentou se justificar, mas foi interrompido.
— Não precisa me explicar nada! A voz de Mila era firme, um muro erguido entre eles. — Sai do meu quarto.
— Mila, eu não tive culpa. Ela me pegou de surpresa. O desespero era palpável na voz de Daniel.
— Já disse que não tem que me explicar nada. A repetição era um eco de sua dor. — Sai do meu quarto, por favor. A súplica final era um sussurro fragilizado.
— Se você me der uma chance, eu posso te explicar tudo. Ela me beijou, mas eu não correspondi. Porque ela não é a garota que vive no meu coração, nos meus pensamentos. Essa garota é você, Mila. Eu sei que nos conhecemos há pouco tempo, mas foi o suficiente para eu me apaixonar por você. Eu não disse nada porque tinha medo... medo que você não sentisse o mesmo, medo que me visse apenas como um amigo. Mas eu te amo, desde o primeiro instante em que te vi. Esta é a primeira vez que estamos realmente sozinhos desde aquele dia, e eu precisava te dizer... como me sinto. A confissão de Daniel era um rio de emoção.
— Você fala demais! E ainda bem, porque eu não teria coragem de dizer essas coisas. Não é que eu não goste de você... é que as palavras ficam presas na minha garganta. Mas quando eu vi você e a Gisele... aquilo foi demais para mim. Eu não consegui aguentar, não pude me conter. A verdade é que eu nunca me senti assim antes. Minha pele queima onde você me toca. A simples pressão da sua mão na minha me faz estremecer. Eu te amo, Daniel. E eu não quero que você beije a Gisele... nem nenhuma outra garota além de mim. A torrente de emoções de Mila finalmente encontrou vazão.
— Eu não quero nenhuma outra garota, só você. Meu pulso acelera só de estar perto de você, Mila. E é por isso que eu preciso te perguntar uma coisa. A voz de Daniel tremia com a intensidade de seus sentimentos.
— Que pergunta? O coração de Mila batia descompassado.
— Mila... você quer ser minha namorada? O pedido era um sussurro carregado de esperança.
— Quero! É claro que eu quero! O rosto de Mila irradiava uma felicidade radiante.

Finalmente, o nó se desfez, e Daniel e Mila encontraram um no outro o que tanto buscavam. Mas será que essa felicidade recém-descoberta resistirá aos imprevistos da vida? Não perca o próximo capítulo para descobrir!

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Estranhos Conhecidos Capítulo 05


— Chega de chorar! Mamãe não gostaria de me ver chorando — disse Mila, esforçando-se para conter as lágrimas que teimavam em escorrer, enquanto sua voz vacilava no meio da frase.

Daniel, com o olhar suave e compreensivo, retrucou:  
— Tem razão. A tia nunca gostava de ver ninguém chorando. Ela sempre queria que todos estivessem felizes, mesmo nos momentos mais difíceis.  

Mila esboçou um sorriso melancólico, respirando fundo antes de continuar:  
— Mamãe sempre via o melhor em tudo. Ela costumava dizer que "por trás das nuvens, o céu é sempre azul".  

Por um instante, os dois permaneceram em silêncio, absorvidos por suas próprias reflexões. Então Mila quebrou o clima, tentando soar mais leve:  
— Então... você vai ficar quanto tempo aqui na cidade?  

— Não sei. Talvez uns dois ou três dias — respondeu Daniel, hesitante. — Agora que não tenho mais pistas sobre o meu pai, não tem mais por que ficar aqui.  

Com uma curiosidade crescente, Mila perguntou:  
— Você não tem onde ficar?  

Daniel balançou a cabeça, meio sem jeito.  
— Não... A tia Marília era a única pessoa que eu conhecia aqui na cidade. Acho que vou voltar para a casa da minha avó.  

O tom triste em sua voz fez Mila arquear as sobrancelhas, preocupada:  
— Você vai morar sozinho? Que triste!  

Daniel, desconcertado, abaixou o olhar e respondeu com um murmúrio:  
— É...  

Percebendo o impacto de suas palavras, Mila levou as mãos ao rosto, aflita:  
— Ah, me desculpe! Eu não quis te magoar ou dizer nada que te deixasse assim. Eu... eu deveria calar a boca! Por favor, me desculpe.  

Daniel deu um sorriso reconfortante.  
— Não se preocupe. Eu sei que você não falou por mal.  

Ansiosa por compensar o momento, Mila ofereceu:  
— Se quiser, eu posso pedir para o tio Lucas deixar você ficar no quarto de hóspedes.  

— Não, obrigado. Não quero incomodar.  

— Não é incômodo algum! Vai ser bom ter alguém por aqui. O tio Lucas vive mais no hospital do que em casa.  

Daniel suspirou, hesitante, mas acabou cedendo:  
— Então eu vou aceitar... mas só por pouco tempo.  

Mila sorriu, determinada:  
— Vou preparar o quarto de hóspedes para você.  

Daniel observou o sorriso dela desaparecer lentamente. Ele inclinou a cabeça, preocupado:  
— Tudo bem? Você parece triste de repente.  

— Não é nada... Está tudo bem — respondeu ela, desviando o olhar.  

Mas Daniel insistiu, com um tom gentil:  
— Tem certeza? Parece que algo está te incomodando.  

Mila suspirou profundamente, deixando escapar um fragmento de sua dor:  
— Acontece que a mamãe adorava receber visitas... Hóspedes então, nem se fala! Ela ficaria tão feliz em receber você, ainda mais por você ser filho da melhor amiga dela.  

Daniel absorveu as palavras em silêncio, sentindo a emoção que Mila tentava esconder. Ele mudou de assunto, para aliviar o peso da conversa:  
— Seu tio vai demorar a chegar?  

— Não sei. É provável que nem venha. Às vezes ele diz que vai jantar aqui, mas sempre acabo comendo sozinha. Por quê? Você precisa falar algo urgente com ele?  

— Não, só queria saber logo se posso ficar, para poder buscar minhas coisas.  

Mila viu uma oportunidade e respondeu rápido:  
— Se quiser, pode ir buscar suas coisas agora e, quando o tio chegar, a gente fala com ele.  

Mas, por dentro, Mila tinha outro plano. Sabia que, se Daniel já estivesse com seus pertences na casa dela, quando o tio chegasse, seria mais difícil para ele negar abrigo ao rapaz. Menina esperta!  

As horas pareceram se arrastar até que, finalmente, Lucas chegou em casa. Mila o recebeu com um sorriso mais brilhante que o habitual, quase exagerado.  
— Tio, querido, que bom que o senhor está aqui. Senti tanto a sua falta! Eu gosto muito de você.  

Lucas estreitou os olhos, desconfiado:  
— O que você quer? — perguntou, direto, já acostumado ao entusiasmo estratégico da sobrinha.  

— Não é nada demais — começou ela, tentando parecer casual. — É que... o Daniel não tem onde ficar aqui na cidade.  

— O Daniel? O rapaz do hospital?  

— É. Ele não tem onde ficar, então eu... ofereci o quarto de hóspedes.  

— O quê?! — exclamou Lucas, surpreso.  

— Calma, tio! Não é por muito tempo. É só até ele encontrar o pai dele.  

Lucas cruzou os braços, claramente insatisfeito:  
— Como você combina uma coisa dessas sem a minha permissão? Você nem conhece esse garoto! Não sabe se o que ele diz é verdade e já o coloca dentro de casa. Você está de castigo por uma semana!  

— Tio, por favor! Depois de amanhã tem uma festa que eu quero muito ir. O senhor não pode fazer isso comigo!  

— Está decidido. Você está de castigo e ponto final! Agora... onde está esse rapaz?  

— Ele foi buscar as coisas dele na casa da avó, que fica na cidade vizinha.  

— Se ele tem avó, por que não mora com ela?  

— Ela morreu. Ele estava morando sozinho e, por isso, saiu à procura do pai. A única pista que ele tinha era a mamãe. Tio, eu sei como é ruim viver sozinha. Sei que é o seu trabalho, mas não gosto de ficar sozinha. Ele conheceu a mamãe. E o senhor sabe que ela nunca negaria ajuda, mesmo que não o conhecesse.  

Lucas suspirou, derrotado.  
— Tudo bem. Ele pode ficar, mas não aqui. Ele fica na casa da piscina. E nada de intimidades com esse rapaz. Não o quero nesta casa enquanto eu não estiver.  

— Intimidades? Eu mal o conheço, tio!  

— Só quero garantir a sua segurança.  

— Eu vou ficar bem, tio.  

Lucas olhou para ela com firmeza:  
— Vou pedir para a dona Maura vir dar uma olhada em vocês de vez em quando.  

Mila revirou os olhos, quase implorando:  
— Por favor, não! A dona Maura é muito chata. Ela vai ficar falando do tempo que era professora e dizendo que eu preciso estudar mais. Por favor, tio, qualquer um, menos ela!  

— Mila, já está decidido. A dona Maura vem, e ponto. Não foi você quem disse que não queria ficar sozinha?  

— Prefiro ficar sozinha do que com a dona Maura! Por favor, tio, diga ao Daniel que ele não pode ficar. Invente uma desculpa, mas não traga a dona Maura para cá!  


Será que a esperta Mila vai conseguir convencer o tio a mudar de ideia? Não perca o próximo capítulo!  

Querido Diário Capítulo 03


Naquela noite, porém, a cadeira de papai permaneceu vazia à mesa. As horas se arrastaram, tecendo uma teia de apreensão entre mamãe e eu. A noite inteira aguardamos, em vão. Telefonamos para seus companheiros de trabalho, a voz embargada pela crescente angústia, mas ninguém soube nos dar notícias.
Onde estaria nosso farol, nosso porto seguro?
Mamãe não pregou os olhos, a sombra da preocupação dançando em seu rosto à luz trêmula do abajur. A madrugada a encontrou na mesma vigília silenciosa, mas papai não voltou. Jamais, desde o meu nascimento, ele havia se ausentado por tanto tempo.
— O papai não vem para casa, mamãe? Minha voz era um fio de esperança hesitante.
— Vem, meu amor. Vá para a cama, eu o esperarei. A voz de mamãe, embora tentando ser firme, carregava um eco de sua própria aflição.
— Me acorde assim que ele chegar, mamãe. O sono era um inimigo que eu relutava em abraçar.
— Tudo bem, meu anjo. Agora vá, amanhã você tem escola. E não quero você dormindo no sofá, feito um anjinho perdido.
— Não me importa, mamãe. A única coisa que meu coração suplica é a volta do papai. A preocupação já me roubou a paz. Ele nunca se atrasou assim.
— Ele deve estar fazendo hora extra, querida. Uma tentativa frágil de acalmar minha crescente apreensão.
— Papai nunca fez hora extra, mamãe. Ele sempre guardou cada minuto livre para nós. Se ele não voltar logo, eu vou chamar a polícia! A ideia, embora assustadora, era um grito desesperado do meu medo.
— Vá dormir, Diana. Amanhã as aulas te esperam. A voz de mamãe era um misto de exaustão e súplica.
— Tudo bem, mas antes de fechar os olhos, pedirei a Deus que proteja o meu pai. A fé era o último refúgio em meio à escuridão da incerteza.
— Faça isso, minha filha. Se existe alguém que pode nos amparar neste momento, esse alguém é Deus. Ele nunca nos desampara. A voz de mamãe era um sussurro de esperança.
— Boa noite, mamãe.
— Boa noite, meu amor.
Não queria que o fardo do meu medo se somasse ao sofrimento de mamãe. Com o coração pesado, me deitei, mas antes, minhas palavras se elevaram em uma prece silenciosa: Senhor meu Deus, por favor, envolva meu pai em Teu manto protetor. Onde quer que ele esteja, guie-o de volta para casa, são e salvo. Imploro, não permita que nenhum mal o alcance.
A manhã nasceu sem trazer o alívio da volta de papai. Mamãe, com o rosto marcado pela noite em claro, dirigiu-se à delegacia. Mas antes que pudesse cruzar a porta, um telefonema cortou a nossa angústia como um raio de sol em meio à tempestade. Papai havia sofrido um acidente. A notícia nos atingiu como um choque gelado, mas a continuação trouxe um fio de esperança: ele estava sem documentos, sem seu fiel companheiro, o celular, e inconsciente. Ao recobrar os sentidos, sua primeira preocupação foi nos avisar, ditando o número de mamãe para que a notícia chegasse até nós. Graças aos céus, nada de tão grave, apenas uma fratura teimosa na perna. Mas papai era forte, nosso leão, e com o amor e os cuidados de mamãe e meus, ele logo estaria em casa, nosso lar novamente completo.
A alegria de tê-lo de volta era um turbilhão de emoções indescritíveis. Tudo o que meu coração desejava era passar a manhã inteira ao seu lado, mas a escola me chamava, um dever que, naquele dia, parecia um fardo pesado.
As aulas transcorreram num ritmo lento, cada minuto me afastando do aconchego do lar. Ansiava por voltar, por cuidar de papai, por absorver cada instante de sua presença. Enquanto a hora da saída não chegava, encontrei consolo na companhia de Bia, minha melhor amiga. No intervalo, a alegria contagiante dela me arrancou alguns sorrisos. Compartilhei com ela a misteriosa descoberta do diário, e para nossa surpresa, as páginas amareladas pareciam guardar segredos da própria vizinha de Bia.
— É idêntico ao diário que a minha vizinha tem... quer dizer, tinha. Lembro-me de vê-lo quando fui a uma festa de aniversário na casa dela. Havia até uma foto dela criança, segurando um diário igualzinho.
— Será que era dela? A curiosidade me picou.
— Talvez... Por que não perguntamos a ela? A sugestão de Bia acendeu uma faísca de aventura.
— Infelizmente, não poderei ir hoje, amiga. Depois da aula, irei para a casa do meu avô. A notícia de Bia foi um balde de água fria na minha empolgação.
— Ah, não, Bia! Vai me deixar sozinha nessa? Meu tom era um misto de súplica e decepção.
— Sinto muito, amiga, mas é um compromisso inadiável. Se você puder esperar até outro dia, terei o maior prazer em acompanhá-la. A voz de Bia era um pedido de desculpas sincero.
— Tudo bem, eu posso ir sozinha, não se preocupe. Mas a verdade é que a ideia de esperar me deixava inquieta, a curiosidade era um bichinho roendo minhas entranhas.
O caminho até a casa daquela senhora parecia mais longo do que o habitual, mas finalmente encontrei o endereço. Com o coração palpitando de expectativa, toquei a campainha. Uma senhora de semblante acolhedor e um sorriso nos lábios veio me receber.
— Boa tarde, dona Joana. A senhora não me conhece, mas eu encontrei seu diário e tomei a liberdade de ler algumas coisas... Espero que não se importe. Minha voz era um fio de timidez e apreensão.

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