O Amor que desafia barreiras
— A gente já não conversou o suficiente? — Kássio disse, cruzando os braços, claramente incomodado.
— Filho, eu não vim aqui para brigar. Não quero mais discussões entre nós — respondeu Antônio, sua voz firme, mas carregada de um tom quase suplicante.
Eu, percebendo o clima tenso, tentei intervir: — Ãhhh... desculpa, vou deixá-los a sós para que conversem à vontade. Com licença.
Afastei-me, mas a contragosto. Cada passo que eu dava parecia mais pesado, como se um imã invisível me puxasse de volta. Não queria sair. Sabia que o que quer que o senhor Antônio dissesse a Kássio me afetaria diretamente. Ele ainda tinha influência sobre o meu noivo. E o medo me corroía: será que ele conseguiria convencê-lo a desistir de nós mais uma vez?
— Você tem que voltar para casa, meu filho — a voz grave de Antônio preencheu o espaço.
— Acho que o senhor já deixou muito claro, da última vez que conversamos, qual é sua posição: “Minha casa, minhas regras”. Não foi isso que você disse? — retrucou Kássio, com uma amargura evidente. — Bem, eu cansei de ser seu fantoche, pai. Não vou abrir mão da garota que amo, só porque você...
Antônio o interrompeu, respirando fundo antes de continuar: — Kássio, eu ainda não acho que ela seja a pessoa certa para você. Mas... também não vou mais interferir no seu relacionamento. Sua mãe me fez enxergar que eu estava agindo errado. Só quero que você volte para casa, para junto da sua família.
Kássio o encarou com determinação: — Não, eu não vou voltar. A Emília e eu vamos nos casar e construir nossa própria família.
— Casar? — a voz de Antônio tremeu, em choque. — Você ainda nem se formou! Filho, você não pode...
— Posso sim, pai. Não só posso, como vou. A Emi é a garota que eu amo, e mesmo depois de casados, não vamos desistir dos estudos. Nunca permitiria que ela fizesse isso, e sei que ela pensa o mesmo sobre mim. Vai ser difícil? Claro que vai. Mas a vida é assim.
Antônio balançou a cabeça lentamente, como se carregasse o peso do mundo: — Não foi essa a vida que eu quis para você.
— Eu sei — respondeu Kássio, o tom mais calmo, mas ainda firme. — Mas é a vida que eu escolhi. E eu não vou abrir mão dela.
— Filho, você não vai dar conta... — disse Antônio, com a voz baixa, quase um sussurro.
— Vou sim! — Kássio rebateu, sem hesitação. — Você me criou para ser um homem forte e trabalhador, não foi? Eu posso, eu quero, e eu vou conseguir. Só peço que não interfira mais na minha vida, pai. Porque eu não vou permitir.
Antônio abaixou o olhar, derrotado: — Não vou. Mas quero que saiba que, quando você precisar de ajuda, não hesite em me procurar.
— Não vou precisar de ajuda. Agora, se me der licença, preciso procurar um trabalho.
Antônio levantou as sobrancelhas, intrigado: — Você não precisa procurar trabalho. Pode trabalhar na empresa da nossa família, se quiser.
Kássio hesitou por um momento: — Eu... não sei.
— Você pode pelo menos pensar? — insistiu o pai.
— Talvez — respondeu Kássio, sua voz agora mais hesitante.
Antônio se aproveitou da brecha: — Consulte sua namorada. Se ela realmente quer o melhor para você, sabe que isso é o melhor.
Assim que Antônio foi embora, uma inquietação tomou conta de mim. O pai de Kássio havia conseguido plantar uma semente de dúvida no coração dele. Por um lado, achava bom que os dois se aproximassem. Mas, por outro, não suportava a ideia de Antônio ainda conseguir influenciar as decisões do meu noivo.
— Amor, você vai aceitar trabalhar com seu pai? — perguntei, tentando esconder minha ansiedade.
— Eu não sei. Conversei com minha mãe, e ela acha que eu deveria aceitar. Todo mundo me diz para trabalhar na empresa, porque um dia ela será minha e da minha irmã. Mas eu não sei se quero seguir os passos do meu pai.
Segurei a mão dele e, com o coração apertado, disse: — Quer saber a minha opinião? Acho que você deveria aceitar essa oportunidade, pelo menos até encontrar um emprego que realmente ame. Não que eu concorde com o seu pai, mas... é o seu futuro. Quero que saiba que vou te apoiar, seja qual for sua decisão.
— Se eu aceitar, estarei provando para ele que não posso vencer por mim mesmo — confessou Kássio, sua voz carregada de incerteza.
— Ou, talvez, esteja apenas mostrando maturidade. Não pense nisso como uma escolha definitiva, mas como um degrau. Uma experiência temporária. Algo como esses empregos de fim de ano.
Ele deu uma risadinha: — Você tem dezessete anos e já está planejando o futuro. Isso é engraçado.
— Eu sou normal? — brinquei, tentando aliviar o clima. — Às vezes, me sinto uma adulta precoce!
— Se você se arrependeu, a gente pode adiar o casamento — sugeriu ele, com um sorriso gentil.
— Não! — respondi, categórica. — Não estou arrependida. Sei exatamente o que quero. Quero ficar com você.
— Eu também quero ficar com você — disse ele, me abraçando.
A escola nos esperava, mas minha mente continuava girando em torno do que Antônio havia dito. O que mais ele seria capaz de fazer?